terça-feira, 30 de outubro de 2007

e-GOVERNMENT E EMPREENDEDORISMO:
Amigos para sempre?


O espírito empresarial é a capacidade dos indivíduos de converter ideias em actos. Compreende a criatividade, a inovação e a assunção de riscos e, bem assim, a capacidade de planear e gerir projectos com vista a alcançar objectivos

(Definição de empreendedorismo proposta pela Comissão Europeia em 2005)


No decorrer da última aula e à medida que o professor ia explanando a matéria, dei comigo a pensar como pode ser determinante o papel do e-government (e-gov) no desenvolvimento futuro do País, ao permitir ganhos evidentes em termos de eficácia e eficiência, o acesso mais alargado à informação, a melhoria acentuada dos tempos de resposta e proximidade da administração aos cidadãos.

Ao longo da minha actividade profissional tive oportunidade de conviver de perto com o chamado “tecido económico local” e desse modo conhecer as suas reacções, expectativas, críticas, enfim, o feedback à actividade desenvolvida pelo município e como essa actividade se repercute no tecido económico e em particular na vida das empresas.

A opinião deles, na generalidade dos casos, é que muitas vezes a vontade política dos executivos não é condizente depois com a prática do “sistema”. Desde o multiplicar de procedimentos que consideram em muitos casos serem repetitivos e redundantes, à morosidade na sua apreciação, e um processo de tomada de decisões que muitas vezes tem apenas em consideração o ponto de vista da estrita legalidade dos procedimentos.

Se isso dificulta a vida daqueles que já estão instalados, como facilmente se compreenderá para aqueles que querem iniciar a sua actividade a dificuldade é ainda maior e foi a este ponto que o meu pensamento me conduziu na aula e acabei por expressar na folha de papel que tinha à minha frente do seguinte modo:



Quero eu dizer com isto que a Sociedade da Informação conduz à Sociedade do Conhecimento, sendo estas as ferramentas essenciais do empreendedorismo.

Mas o empreendedorismo só consegue frutificar num ambiente de inovação, criatividade e capacidade de assunção de riscos, tudo isto princípios que a administração por norma demonstra grande dificuldade em aceitar, sendo que esta atitude tem várias origens: nos “medos” e “espírito de conservação da espécie”, na necessidade de “defesa do quintal”, na corrupção, etc., etc..

Como se isto não bastasse (se calhar talvez por isso) observamos que a sociedade portuguesa continua a ser marcada, entre outros aspectos:
- por uma grande dependência das organizações sociais e económicas dos poderes públicos e dos aparelhos administrativos do Estado e das autarquias locais;
- por um sistema político “fechado” e centralista bloqueador/inibidor da participação do cidadão;
- por um baixo nível de racionalidade e eficiência na aplicação e utilização dos recursos disponíveis.
Enfim, um conjunto de características que dificultam a sua inserção no mundo moderno de hoje e que acabam por “alimentar” e “proteger” o funcionamento do sistema actual.

Ora as sociedades modernas e competitivas caracterizam-se, pelo contrário, pela adopção alargada, nas esferas política, económica, social e cultural, de modelos de organização e funcionamento em “rede”, exigidos pelas condições da revolução científica e técnica e favorecidos pelos modernos meios de informação e comunicação, contribuindo desse modo para o acesso generalizado à informação/prestação de serviços.
É da história: o Estado (central, regional e local) pode “mudar” quer por acção consciente e deliberada de topo, quer por efeito da pressão e exigência social, raramente acontecendo que essas duas “energias” se produzam em simultaneidade e convergência. Isso aconteceu logo após o 25 de Abril, mas não está a acontecer (quando até podia acontecer) no actual processo de reforma do Estado. E é aqui que o e-Gov pode ter um papel decisivo, na transformação para uma administração orientada para o cliente, visando a satisfação das suas necessidades e não da burocracia, impondo uma maior democratização e abertura da administração a qual, perante um pedido do cidadão, deixe de ter uma linguagem meramente binária de sim ou não e colocar-se do “lado de lá” e dizer “vamos pensar na forma como resolver o seu assunto”.

Estando aí as ferramentas tecnológicas, penso que a chave do problema residirá sobretudo no factor humano, o que exige uma condução política forte e persistente na mudança de atitude, evitando contudo o risco da mudança do paradoxo, passando a ser a máquina a por e a dispor como Hal 9000 no filme de Kubrick.

E nesse sentido nada melhor do que transcrever o que disse Manuel Castells in “A Sociedade em Rede”, Cap 3 – A Empresa em Rede (pág. 226):

A maioria dos métodos de incentivo à participação dos trabalhadores, experimentados pelas empresas japonesas, suecas e norte-americanas, exigia uma mudança de mentalidades mais do que uma mudança tecnológica. O maior obstáculo na adaptação da empresa vertical às exigências de flexibilidade da economia global foi a rigidez das culturas empresariais tradicionais. Além disso, no momento da sua difusão maciça nos anos 80, supunha-se que as tecnologias de informação fossem o instrumento mágico para reformar e transformar a empresa industrial. Mas a sua introdução, sem a necessária transformação organizacional, agravou de facto os problemas de rigidez e burocratização. Os controlos informáticos causaram ainda mais interrupções do que os tradicionais canais de autoridade (face a face), onde ainda havia lugar para alguma forma de negociação implícita”.

Cascais, 29 de Outubro de 2007.

António Marciano

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